Empreendedorismo, Mulher, Tecnologia

A mulher que conquistou Bill Gates

O sucesso de uma ex-funcionária pública chama a atenção do dono da Microsoft

Pergunte-se a Bill Gates, o homem mais rico do mundo, como conheceu a paulista Cristina Boner e ele se lembrará de uma cena espantosa. Em fevereiro de 1996, Gates estava no 24º andar de um prédio em Brasília, participando de uma reunião com diretores do Banco do Brasil. Quando olhou pela janela, viu passar um teco-teco com uma faixa atada à cauda em que se lia: “Wellcome, Bill Gates. TBA”. Ele interrompeu a reunião, chamou um assessor e perguntou: “O que é TBA?”. No dia seguinte estava diante de Cristina, dona de uma empresa de informática na capital federal. O encontro foi o primeiro de quatro ocorridos nos últimos dois anos — três deles nos Estados Unidos. “Quando soube que ele viria ao Brasil, contratei o avião e dei ordens ao piloto para que sobrevoasse o prédio até ser notado”, conta Cristina. “Ele ficou tão curioso que pediu para me chamar no escritório marcando uma reunião para o dia seguinte.” Esse é também o capítulo mais pitoresco de uma história de sucesso meteórico que transformou uma ex-funcionária numa estrela no mundo dos computadores no Brasil.

Seis anos atrás, Cristina Boner, hoje com 38 anos e separada do marido, esfalfava-se para sustentar a casa e as três filhas. Acumulava dois empregos, que lhe rendiam cerca de 5.000 reais por mês. Decidiu, então, dar uma guinada. Largou o serviço público e criou a TBA Informática, uma empresa de fornecimento de programas para computadores. Nos primeiros seis meses, quando a firma ainda funcionava numa sala de 40 metros quadrados, teve de vender seu automóvel Gol, para pagar o salário dos dois empregados. De lá para cá, o sucesso foi estrondoso. Neste ano, a previsão de faturamento é de 100 milhões de reais — 20.000 vezes o salário que a moça ganhava seis anos atrás. Hoje, a TBA é a 45ª maior empresa privada de informática do país. É um desempenho e tanto num mundo povoado por tubarões do porte de IBM, Xerox, Microsoft, Unisys e Oracle.

Aposta arriscada

“Às vezes, nem eu acredito na rapidez com que tudo aconteceu”, afirma Cristina. A arrancada se deveu a uma aposta arriscada, feita em 1994. À época, o programa de gerenciamento de empresas mais usado era o Unix. Cristina encantou-se com um produto novo, ainda visto com desconfiança pelo mercado, o Windows NT, fabricado pela Microsoft de Bill Gates. Tornou-se craque em seu uso e passou a recomendá-lo aos clientes. Com o palpite certeiro, a TBA tirou a sorte grande. O Windows NT cresceu tanto nos últimos anos no Brasil que hoje já detém cerca de metade do mercado. A empresa de Cristina progrediu junto e agora tem 500 funcionários e filiais em cinco capitais. Em julho, a TBA recebeu o prêmio Parceira do Ano, concedido pela Microsoft. Para alcançar a premiação, Cristina bateu 15.000 concorrentes que trabalham com os produtos da gigante americana em todo o mundo. Até então, só companhias instaladas nos Estados Unidos tinham recebido o prêmio.

Na capital federal, não se tem notícia de uma mulher com ascensão tão rápida. Dez anos atrás, Cristina acordava às 6 horas da manhã, preparava o café das filhas e ia trabalhar no Serviço Federal de Processamento de Dados. À tarde dava aula particular de matemática e estagiava no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. À noite era professora de lógica de processamento de dados na Universidade Católica de Brasília. Agora, mesmo com um expediente que começa às 8h30 e muitas vezes termina depois da meia-noite e nunca inclui férias, sua vida é mais prazerosa. A conta bancária, mais polpuda. Sua retirada anual na empresa é de 350.000 reais. Cristina mora num apartamento amplo enquanto reforma uma casa no Lago Sul, bairro de classe alta de Brasília. Tem dois carros importados na garagem, quadros de artistas famosos na parede, como Siron Franco e Manabu Mabe, e gosta de usar jóias de ouro com brilhantes e bons relógios.

Votos na Internet

Estima-se que, de cada dez pequenas empresas que surgem no Brasil, oito vão à falência antes de completar dois anos. Além de estar entre as que sobrevivem, a TBA extrapolou qualquer expectativa otimista. No ano passado, suas vendas cresceram 161%, marca superada apenas por outras três companhias privadas entre as 100 maiores do ramo no país. Parte do crescimento se deve à localização (é uma das únicas empresas de porte no setor localizada no Centro-Oeste) e a sua proximidade com o governo federal. Em 1995, fechou contrato no valor de 14 milhões de reais por ano para, entre outras coisas, montar e dar assistência técnica ao programa de entrega do imposto de renda pela Internet. A TBA também montou o projeto para apuração eletrônica das últimas eleições e a divulgação dos resultados via Internet.

Cristina Boner não é um gênio da informática, mas tomou a decisão certa ao entrar para um ramo em que a crise até agora não bateu de frente. Também teve a boa idéia de diversificar seus produtos e sua clientela. Crescendo a cada ano, sua firma, que se limitava a vender programas empresariais, criou um braço de acesso à Internet, hoje com 15.000 clientes, e uma escola de formação de técnicos, por onde já passaram 30.000 alunos. Seus planos para a escola são ambiciosos e foram apoiados pelo guru Bill Gates. Os dois conversaram sobre o assunto num de seus encontros. “Eu lhe disse que previa dificuldades porque estava crescendo demais e logo haveria mais problemas do que técnicos para resolvê-los”, conta Cristina. “Ele concordou e eu saí de lá exultante.”

Fonte: Vladimir Netto

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